Observatório da Terapia Ocupacional


  Está dito...



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 16h04
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Terceiro Ditame

O Hábito faz o Monge

 

162.     Uma das definições de caráter aponta para o fato de que sua construção se dá pela inclinação da vontade do sujeito e que a vontade, por meio da educação, pode ser modulada para a virtude ou para o vício e, por fim, que ambos necessitam do fenômeno da repetição para a sedimentação. Dessa forma, através do ditado popular em tela o caminho de decifrar o que está “criptografado” nos ditames populares segue seu curso nesse estudo livre.

163.     O presente dito popular é bem conhecido - contudo diferentemente do ditame anterior – que se configura numa relação de significado e estabelece uma equivalência entre uma situação e outra – este apresenta uma relação de causa e efeito. Em outras palavras, o fator causa é o hábito e o efeito é a aparição do monge. A relação de causa e efeito difere da relação de significado – sutilmente - por ser mais direta na apresentação da cadeia de causa e efeito, uma vez que a orientação e a conseqüência - em face do verbo do tipo fazer = o hábito faz - ficam mais à mostra; ao contrário da equivalência - a qual se identifica por verbos do tipo de estado = é; ser – depende de mais chaves interpretativas.

164.     De qualquer forma – estabelece uma prescrição de modo – um operador modal – que representa um valor que modula – que regra o comportamento. A partir dele pode-se vislumbrar em perspectiva (de modo antecipado) os efeitos de se comportar ou não em conformidade com o ditame em tela. Da mesma forma - fica mais evidente a intenção do ditado.

165.     Contudo – antes de analisarmos as intenções contidas no ditado se faz necessário definir por meio de relações de significado o que é hábito:

 

Hábito = Disposição Adquirida pela Repetição Freqüente dum Ato – Uso – Costume.

Hábito = Roupagem – vestimenta que Faz Uso um Frade ou uma Freira.

166.     E conforme foi observado na análise do ditame inicial:

Hábito = léxis = Algo Possuído Estavelmente

 

167.     Esta última definição reduz a uma expressão única as anteriores. Contudo – esta redução pede uma passagem explicativa.

168.     A idéia de hábito carrega um duplo significado – por um lado significa uma vestimenta de uso frequente e por outro – significa comportamentos reiterados tempestivamente.

169.     Como já se viu no ditame anterior – significa algo possuído estavelmente.  Dessa forma – o hábito é – sobretudo - responsável por dois aspectos da aparição do modo de ser-no-mundo – isto é – identidade e visibilidade (imagem).

170.     O operador modal - cuja definição já foi apontada anteriormente – contido no presente ditado popular é a prescrição, a afirmação da possibilidade de construção de uma imagem e uma identidade denominada de Monge. No entanto – vejamos o se pode denominar de algo possuído estavelmente.

 



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 16h03
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Segundo Ditame

O Ócio é o Pai de todos os Vícios

155.       A análise do presente ditado será breve, uma vez que ele guarda parentesco com o anterior, que foi extensamente analisado, todavia, aqui, ele participara como um “hífen” para o próximo ditame.

156.       Numa versão mais atual – iluminista – temos a transição de Mente Desocupada – Oficina do Diabo - para - O Ócio é O Pai de todos os Vícios.

157.       A idéia de que esse ditado seja uma releitura iluminista do primeiro que foi analisado, encontra sustentação na afirmação de Eric Fromm:

 Freud era, em muitos aspectos um representante típico do espírito do Iluminismo, acreditando na razão e no direito do homem a proteger suas reivindicações naturais contra as convenções sociais e a pressão da cultura. Ao mesmo tempo, contudo, sustentava a opinião de que o homem era preguiçoso e auto-indulgente por natureza e tinha que ser forçado a seguir a trilha da atividade socialmente útil. E (Análise do Homem-1981)

  

Eric Fromm

158.        Um “dos mais brilhantes defensores da racionalidade, da humanidade e da liberdade de pensamento, o filósofo Bertrand Russell” - inicia o primeiro capítulo de seu livro intitulado, O Elogio ao Ócio, exatamente com este ditado; ele diz:

 

Como muitos homens de minha geração, fui educado segundo os preceitos do provérbio que diz que o ócio é o pai de todos os vícios. E como sempre fui um jovem virtuoso, acreditava em tudo o que me diziam, razão pela qual adquiri esta consciência que me faz trabalhar duro até hoje. Mas apesar de a consciência ter controlado as minhas ações, minhas opiniões sofreram uma verdadeira revolução.

 

159.       Ele pretende em seu livro provar que o ócio é a busca de todo ser e que o trabalho ao contrário do que se pensa não é o principal objetivo da vida, se fosse as pessoas gostariam de trabalhar, mas isso não é o que acontece. Há sim um pequeno grupo que gosta de trabalho, mas de que tipo de trabalho? Bem! há dois tipos de trabalho: o primeiro é o uso da força para transformar qualquer coisa e o segundo é ordenar ou dar conselhos par que o primeiro aconteça. Sendo assim, a minoria que gosta de trabalho está inclusa, obviamente, no segundo caso e alardeia por todos os cantos as vantagens e virtudes do trabalho árduo (o primeiro caso), pois o trabalho árduo do outro é responsável pelo ócio deles, não é a toa que eles adoram o trabalho.

160.       Dessa forma, Bertrand Russell – orienta – necessariamente para o ditame: Faça o que eu mando, não faça o que eu faço. (sociedade pai – sociedade patrão)

161.       Esse ditado fala da paternidade dos vícios, então faz-se necessário analisar o conceito e sua aparição no cotidiano do ser e o grau de prejuízo, se é que ele existe, causado pelo ócio segundo a crença popular.



E “Os dois lados opostos da atitude de Freud são encontrados em seu livro O Futuro de Uma Ilusão.



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 11h54
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 18h13
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


146.    O ditado popular em foco suscita: quais os motivos que levam um proprietário a abandonar, a desocupar a sua propriedade? O que o levaria a se afastar, a deixar de ter cuidado e, portanto, de construí-la (exercitar) constantemente? Porque deixar de exercitar o que lhe é próprio? E ainda, poderia alguém que não o proprietário desapropriar o que lhe é alheio?

147.    A desocupação da “propriedade” se dá, segundo o ditame, pelo desviamento das condutas socialmente aceitas cujo motivo principal é o “não fazer nada” que promove a “mente vazia”. O indivíduo é atraído por outras condutas, dissonantes da moralidade social e pela referida desocupação se entrega à perdição e, portanto, ao “diabo”, o qual se apodera da sua mente; dela faz “morada” e “tece” em sua nova “oficina” a trama do mal.

148.    Alguns aspectos contidos nesse ditado popular são plausíveis, senão vejamos: se o ser é aquele que tem um sentido de ser em si-mesmo e esse sentido pode ser cada vez mais seu se ele o exercitar. Por outro lado, à medida que o ser deixa de exercitar o que lhe é próprio, ele abandona a posse de si mesmo e poderá passar a agir ou ser regido pelo desejo de outro, o qual, de certa forma, se apropria de seus atos e tece, também, em seu pensamento as razões motivadoras para essas atitudes “desviantes”.

149.    Um bom exemplo disso são as inúmeras pessoas que não sabem sequer porque consomem tanto, apenas o fazem dirigidas por uma consciência invisível e impessoal disseminada no coletivo.

150.    Outro importante exemplo é quando um jovem, no limite entre a pobreza e a miséria, não vislumbra na sua vida nenhuma possibilidade de ser importante e de se realizar nas suas potencialidades; como resultado? Entrega-se a atividades marginais! Trata-se, pois de uma consciência contingenciada e muitas vezes escravizada por tal contingência.

151.    Seja por uma consciência invisível e coletiva ou por uma contingência o indivíduo se vê, principalmente, diante de duas principais opções, i. é, ou se retira para garantir um mínimo de esperança de vir a ser proprietário de si mesmo ou se entrega à servidão; ao império do sistema.

152.    Haveria, contudo, outra opção: a luta para retomar o que é próprio, a reintegração da posse, que se configura, sem dúvida, numa luta árdua, pois os infortúnios que se colocam diante do ser, muitas vezes, beiram ao intransponível. Entretanto, se no meio do caminho tem uma pedra, é nela que se debruça o clamor do ser para si mesmo, e, se a pedra no meio do caminho se mantém visível à consciência, então, talvez, tanto a retirada quanto a servidão não sejam definitivas, sejam apenas estratégias de sobrevivência, posições expectantes até que o futuro se revele promissor mediante a luta de reintegração do “patrimônio”. A pedra no meio do caminho é o sinal, o desconforto da consciência em face da desapropriação; a desnaturação das propriedades do ser. Assim se a pedra desaparece do caminho o ser, em muito, perde o seu sentido e ao contrário da fábula, se transmuta em um boneco de madeira.

153.    Johann Spiess publicou em 1587 o livro História do Dr. Johann Faust, vendido em feiras populares por todo o país, baseado nas crônicas e relatos sobre um certo Johann ou Georg Faust, que nasceu na virada do século 15 para o 16 e que morreu em circunstâncias misteriosas e violentas entre 1540 e 1541. Tratava-se de um homem que havia feito um pacto de sangue com o diabo para auferir conhecimentos e poderes mágicos e cuja alma é levada ao inferno após o período contratado com o demônio. Essa história foi desde o século 16 uma das lendas mais populares na Alemanha. Época de profundas crises religiosas, com a emergência do protestantismo e da contra-reforma católica e da turbulenta transição entre a Idade Média, em seus estertores, e a Era Moderna.

154.    Segundo BERMAN (1987, 66-7) em Tudo o que é sólido desmancha no ar; a aventura da modernidade, “Goethe encara a modernização do mundo material como uma sublime realização espiritual; Fausto, em sua atividade como “o Fomentador”, que põe o mundo em seu passo certo, é um herói moderno, arquetípico. Todavia, o fomentador, como Goethe o concebe, é não apenas heróico, mas também trágico. Para compreender a tragédia do fomentador, é preciso julgar sua visão de mundo, não só pelo que ela revela – pelos imensos novos horizontes que abre para a espécie humana - , mas também pelo que ela esconde: pelas realidades humanas que se recusa a ver, pelas potencialidades que não é capaz de enfrentar. Fausto vislumbra, e luta para criar, um mundo onde o crescimento pessoal e o progresso social possam ser atingidos com um mínimo de sacrifícios humanos. Ironicamente, sua tragédia decorre exatamente de seu desejo de eliminar a tragédia da vida.

À medida que Fausto supervisiona seu trabalho, toda a região em seu redor se renova e toda uma nova sociedade é criada à sua imagem. Apenas uma pequena porção de terra da costa permanece como era antes. Esta é ocupada por Filemo e Báucia, um velho e simpático casal que aí está em tempo sem conta. Eles têm um pequeno chalé sobre as dunas, uma capela com um pequeno sino, um jardim repleto de tílias e oferecem ajuda e hospitalidade a marinheiros náufragos e sonhadores. Com o passar dos anos tornaram-se bem amados como a única fonte de vida e alegria nessa terra desolada [...] eles representam a primeira encarnação literária de uma categoria de pessoas de larga repercussão na história moderna: pessoas que estão no caminho – no caminho da história, do progresso, do desenvolvimento; pessoas que são classificadas, e descartadas, como obsoletas.

Fausto se torna obcecado com o velho casal e sua pequena porção de terra: “este casal de velhos devia ter se afastado,/ Eu quero tílias sob meu controle, / Pois essas poucas árvores que me são negadas,/ Comprometem minha propriedade como um todo./ ... Por isso nossa alma se debruça sobre a cerca,/ Para sentir em meio à plenitude, o que nos falta” (11239-52). Eles precisam ser afastados para dar lugar àquilo que Fausto passa a ver como a culminação de seu trabalho: uma torre de observação, do alto da qual ele e os seus possam “contemplar a distância até o infinito”, soberanos sobre o novo mundo que construíram. Ele oferece a Filemo e Baucia uma importância em dinheiro ou sua transferência para outra propriedade. Mas, na sua idade, que fariam eles com o dinheiro? E, depois de viver toda a sua vida aí, próximos do fim da vida aí, como poderiam recomeçar a vida noutra parte? Eles se recusam a mudar. “Resistência e teimosia assim/ Frustram o êxito mais glorioso, / Até um ponto em que, lamentavelmente, o homem começa a se cansar de ser justo” (11269 – 72).

Nessa altura, Fausto comete de maneira consciente seu primeiro ato mau. Convoca Mefisto e seus “homens fortes” e ordena-lhes que tirem o casal de velhos de caminho. Ele não deseja vê-lo, nem quer saber dos detalhes da coisa. Só o que lhes interessa é o resultado final: quer que o terreno esteja livre na manhã seguinte, para que seu novo projeto seja iniciado. Isso é um estilo de maldade caracteristicamente moderno: indireto, impessoal, mediado por complexas organizações e funções institucionais. Mefisto e sua unidade especial retornam “na calada da noite’ com a boa notícia de que tudo estava resolvido. Fausto, de repente peocupado, pergunta para onde foi removido o velho casal – e vem a saber que a casa foi incendiada e eles foram mortos. Fausto se sente pasmo e ultrajado [...].Protesta dizendo que não ordenara violência; chama Mefisto de monstro e manda-o embora. O  príncipe das trevas se vai, elegantemente, como cavalheiro que é; porém ri antes de sair. Fausto vinha fingindo não só para os outros, mas para si mesmo, que podia criar um mundo novo com as mãos limpas; ele ainda não está preparado para aceitar a responsabilidade sobre a morte e o sofrimento humano que abrem caminho. Primeiro, firmou contrato com o trabalho sujo do desenvolvimento; agora lava as mãos e condena o executante da tarefa, tão logo esta é cumprida. É como se o processo do desenvolvimento, ainda quando transforma a terra num deslumbrante espaço físico e social, recriasse a terra vazia no coração do próprio fomentador. É assim que funciona a tragédia do desenvolvimento.”

 

 



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 15h11
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

Continuação da Nota Segunda

 

133         Uma outra inferência com menor nível de distorção pode ser analisada:  hábitat é uma palavra que tem a mesma origem etimológica de hábito - isto é - êthos = princípio gerador do léxis = hábito = algo possuído estavelmente. Aqui – então – reside a possibilidade de pensar a Mente desocupada enquanto afastada do hábito. Donde se conclui que perder a estabilidade daquilo que se possui (comportamento regrado) pode significar a inauguração da Oficina do Diabo.

 

134         Nos dois casos apontados trata-se de desapropriar-se ao contrário de apropriar-se do que já é próprio - ou seja – do hábitat e/ou do hábito. Porém quais seriam as razões - os motivos que levariam um proprietário a abandonar - a desocupar aquilo que lhe é próprio?

 

135         Com a finalidade de apontar uma das possíveis respostas a essa pergunta, pode-se visar a obra de ficcional Goethe – Fausto; obra baseada numa lenda e construída ao longo de sua vida;

 

136         Fausto de Goethe foi levado ao teatro e já foi encenado quase no mundo inteiro de maneira incontável e, também, já motivou produções cinematográficas:

Naquela noite de tormentos em meio ao nevoeiro, que inundou o quarto gótico, surge para Fausto uma manifestação muito peculiar, ou seja, Satanás em pessoa, em pessoa? Bem! Vestido como um goliardo, um andarilho medieval, o seu objetivo, ali, naquela noite, é levar o velho Doutor Fausto a um pacto de sangue. Para tanto, não haveria o momento mais propício, pois Fausto estava desgostoso e desesperançado com sua própria existência.

 

137         Goethe, neste primeiro encontro de Fausto com o Maligno, tomou-se de cuidados. O seu demônio não tem o visual que dele faziam os medievais. Sem enxofre, chifres, rabos ou cascos, pode-se dizer que chega a ser um diabo Iluminista (o homem é o lobo do homem), um capeta secular. Com a aparência de um ser humano transita sem embaraços pela sociedade.

 

138         O demônio de Goethe considera o homem tal qual uma cigarra pensante, condenado a pousar em tudo, a cheirar coisas imundas, para logo em seguida desejar "as estrelas mais belas e os mais altos prazeres da Terra".

 

139         Todavia respondendo à pergunta formulada quanto ao motivo do abandono do que é próprio – tem-se – no caso ficcional exemplar – uma possível resposta: o desgosto e a desesperança de Fausto com a sua própria existência. A desesperança é a ausência de um projeto de si, é a ausência de um ser orientado para o futuro, um ser a vir a ser, mas que ainda não é o que deseja ser. E em razão da “noite de tormentos” a invocação, a súplica que traz à cena o Diabo – o futuro proprietário da alma de Fausto em troca dos poderes remediadores da dor existencial; da desesperança.

 

140         Vejamos uma outra possibilidade: retirar-se de um determinado espaço - evadir-se ou fugir dele - são comportamentos promotores do abandono e da desocupação. Entretanto - eles são motivados - na maioria das vezes - pelo medo e pela luta para a preservação da própria vida. Isto significa que uma determinada situação e/ou um ambiente no qual um ser esta inserido lhe impõe algum tipo de ameaça - a evasão espacial e/ou o abandono de determinados costumes são necessários para a sua preservação - parece justificar-se - principalmente se as potencias para o enfrentamento do infortúnio não são suficientes.

 

CANSADO DA VIAGEM O RETIRANTE PENSA  
INTERROMPÊ-LA POR UNS INSTANTES  
E PROCURAR TRABALHO ALI ONDE SE ENCONTRA.  

Desde que estou retirando  
só a morte vejo ativa -  
só a morte deparei  
e às vezes até festiva  
só a morte tem encontrado  
quem pensava encontrar vida,  
e o pouco que não foi morte  
foi de vida severina  
(aquela vida que é menos  
vivida que defendida,  
e é ainda mais severina  
para o homem que retira)...

 

141         De uma breve análise de Morte e Vida Severina e desse trecho mais especificamente, pode-se afirmar que o retirante estava submetido a uma dor insuportável no seu mundo – razão pela qual ele se embrenha no caos – no amorfo – no homogêneo e desconhecido (estranho – aliud – alienado). Além da dor como fator motivacional para a retirada – tem-se a esperança de recrear esse mundo em outro lugar - contudo a ausência de perspectiva de encontrá-lo – obscurece o futuro e faz com que somente a morte se lhe apresente como destino.  

 

142         Essa é mais uma possível representação do motivo do abandono (desocupação) - da quebra da posse estável do que é próprio em todas as suas expressões – espaço, tempo, ocupações, hábitos etc.

 

143         Se tomar-mos – nesse caso - a quebra da rotina como exemplo de expressão do que se denominou de posse estável – o que se tem é uma mudança de roteiro – da rota e – possivelmente - não necessariamente - do destino. E é o que acontece na narrativa do retirante – pois ele muda a rota - o roteiro – visando restaurar o destino para o qual ele estava enviado antes da dor instalada – todavia esse destino não pode ser vislumbrado em face da amplitude do caos instalado no percurso.

 

144         Enquanto que na grande obra de João Cabral de Melo Neto, o poema é a descrição de um percurso narrativo, é a representação da realidade através da poesia, a qual possui a potencia de nos fazer ver, ouvir e sentir a severidade de uma vida que é ostensivamente desapropriada por razões multifatoriais, dentre as quais apontamos, principalmente, o contraste social em conjunção às precariedades e intempéries regionais. A frase posta para o presente estudo é um pequeno verso de uma extensa poesia, escrita pela história ocidental. Um pequeno verso que, solitariamente, quer representar e se revelar como uma realidade uma norma. Mas que pode se tornar uma contribuição fundamental na construção do campo de conhecimento da Terapia Ocupacional e na compreensão da sociedade desvelada na cultura e alicerçada mesmo que de maneira pré-judicativa no poético.



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 02h28
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

 

 

RESOLUÇÃO COFFITO Nº 370, DE 6 DE NOVEMBRO DE 2009

DOU 25.11.2009

Dispõe sobre a adoção da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) da Organização Mundial de Saúde por Fisioterapeutas e Terapeutas Ocupacionais.

O Plenário do Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional, no uso das atribuições conferidas pelo art. 5º da Lei nº 6316, de 17 de setembro de 1975, em sua 191ª Reunião Plenária Ordinária, realizada no dia 06 de novembro de 2009, em sua subsede, situada na Rua Napoleão de Barros, nº 471, Vila Clementino, São Paulo- SP,

Considerando os artigos 3º e 4º do Decreto-Lei 938/69;

Considerando a criação da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2001;

Considerando a resolução da OMS 54.21 que recomenda o uso da CIF pelos países membros;

Considerando o modelo multidirecional proposto na CIF que inclui os fatores ambientais e pessoais como determinantes da funcionalidade, da incapacidade e da saúde;

Considerando as pesquisas atuais sobre o uso da CIF em Saúde Funcional;

Considerando que a CIF permite avaliar as necessidades funcionais das pessoas;

Considerando que a CIF pode servir como modelo para avaliação, acompanhamento e determinação de tratamentos conduzidos por Fisioterapeutas e por Terapeutas Ocupacionais; resolve:

Art. 1º O Fisioterapeuta e o Terapeuta Ocupacional adotarão a Classificação Internacional de Funcionalidade, incapacidade e saúde(CIF), segundo recomenda a Organização Mundial de Saúde (OMS), no âmbito de suas respectivas competências institucionais.

PARAGRAFO ÚNICO: A Classificação de que se trata este artigo será utilizada como:

a) ferramenta estatística - na coleta e registro de dados (e.g. em estudos da população e pesquisas na população ou em sistemas de gerenciamento de informações);

b) ferramenta de pesquisa - para medir resultados, qualidade de vida ou fatores ambientais;

c) ferramenta clínica - na avaliação de necessidades, compatibilidade dos tratamentos com as condições específicas, avaliação vocacional, reabilitação e avaliação dos resultados;

d) ferramenta de política social - no planejamento dos sistemas de previdência social, sistemas de compensação e projetos e implantação de políticas públicas;

e) ferramenta pedagógica - na elaboração de programas educativos para aumentar a conscientização e realizar ações sociais.

Art. 2º O Fisioterapeuta e o Terapeuta Ocupacional aplicarão, após os respectivos diagnósticos fisioterapêuticos e terapêuticos ocupacionais, a versão atualizada da CIF e sua derivada.

Art. 3º O Fisioterapeuta e o Terapeuta Ocupacional adotarão, no âmbito das suas respectivas competências institucionais, o uso do modelo multidirecional da CIF na atenção e no cuidado fisioterapêutico e terapêutico ocupacional nas necessidades da pessoa.

Art. 4º Os serviços de Fisioterapia e de Terapia Ocupacional adotarão o uso da CIF para formação de banco de dados de saúde.

Art. 5º O COFFITO recomendará às Instituições de Ensino Superior o ensino da CIF nos cursos de graduação, pós-graduação e extensão em Fisioterapia e em Terapia Ocupacional.

Art. 6º Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação.

 

RESOLUÇÃO No- 371, DE 6 DE NOVEMBRO DE 2009

 

 

Dispõe sobre a alteração do artigo 1º da Resolução COFFITO nº 366.

 

 

O Plenário do Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional, no uso das atribuições conferidas pelo art. 5º da Lei nº. 6316, de 17 de setembro de 1975, em sua 191ª Reunião Plenária Ordinária, realizada no dia 06 de novembro de 2009, em sua subsede, situada na Rua Napoleão de Barros, nº 471, Vila Clementino, São Paulo- SP,

 

Considerando o artigo 4º do Decreto-Lei 938/69;

Considerando o inciso XII do artigo 5º da Lei nº. 6316, de 17 de dezembro de 1975;

Considerando os incisos I, II, III, IV, V e VI do artigo 4º da Resolução COFFITO nº 8, de 20 de fevereiro de 1978;

Considerando os artigos 1º, 2º, e 3º da Resolução COFFITO nº 81, de 9 de maio de 1987;

Considerando o inciso XXIV do artigo 8º da Resolução COFFITO nº 181, de 25 de novembro de 1997;

Considerando os requerimentos efetuados durante a consulta pública realizada no mês de setembro de 2009 visando tratar da questão das especialidades em conformidade com a Resolução COFFITO nº 360, de 18 de dezembro de 2008; resolve:

 

Art. 1º - O artigo 1º da Resolução COFFITO nº. 366, de 20 de maio de 2009, publicada no DOU nº. 112, Seção 1, página 42, em 16 de junho de 2009, passa a ter a seguinte redação: "Artigo 1º - Reconhecer as seguintes Especialidades do profissional Terapeuta

Ocupacional: a) Saúde Mental; b) Saúde Funcional; c) Saúde Coletiva; d) Saúde da Família; e) Contextos Sociais; f) Contextos Hospitalares; g) Acupuntura."

 

Art. 2º - Fica revogada a Resolução COFFITO nº 221, de 23 de maio de 2001, publicada no DOU nº. 108, Seção 1, página 46, em 05 de junho de 2001.

 

Art. 3º - Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 22h06
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

Náusea – sintoma ou causa?

 

 

Senhor da doença

Busca funesta de poder frustrado;

Ideação fracassada de um corpo aprisionado;

Soma cadavérica;

Mosaico amorfo de vestígios do que passou;

Cabide-corpo de um avental engomado;

Casulo onde os poucos fios de vida tecem a morte dos condenados.

 

Doença, propriedade privada;

Diagnóstico, chave da porta;

Estar dentro; esotérico conhecimento;

Estar fora; forasteiro, intruso, corpo estranho.

Porta aberta?

Não!

Legalmente fechada.

Entrar é a saída?

 

 

AH! Maravilhoso corpo ocupacional que se cura a despeito da doença.

AH! Maravilhoso corpo ocupacional que se cura na cadência decadente da existência.

Sua terapia? O dia a dia!

Ocupacional como sua natureza!

Porta aberta entre dois corpos ocupados;

Ambos operados pelo sentido do ser do cuidado,

Ora de um lado, ora do Outro,

 

Mario Battisti



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 04h04
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

Justiça, Equidade e Liberdade

Entre as várias discussões que perpassam a construção Política da Terapia Ocupacional destacam-se os seguintes princípios: Justiça, Equidade e Liberdade, os quais, em apertada síntese, podem ser definidos como segue:

Justiça princípio que visa promover a igualdade de direitos entre todos que estão sob a égide dos preceitos constitucionais, aos quais se seguem as regras prescritoras, ou seja, as Leis que regulam o proceder das pessoas em sociedade.

Equidade princípio que visa, por sua vez, fazer com que essas normas reguladoras sejam aplicadas de tal sorte a alcançar as pessoas nas suas necessidades individuais.

Liberdade princípio que fundamenta a vida democrática de uma nação e que, via de conseqüência, ecoa na organização política da sociedade.

Esses três princípios conjugados orientam a reflexão na direção de alguns conceitos chaves para a construção de uma política Nacional de Terapia Ocupacional; são eles:

a igualdade perante a Lei,

a especificidade das necessidades e a liberdade, sobretudo, e sem obstruções estranhas,de pensar os destinos da Terapia Ocupacional em face das solicitudes da sociedade brasileira.

Essa Política Nacional de Terapia Ocupacional tão almejada não suporta e não pode mais ficar adstrita ao juízo da análise quantitativa, ou melhor, constrangida à análise diminuta relacionada ao número de profissionais habilitados para o exercício da profissão. Ao contrário, ela deve ser visada como uma Política que vislumbra a Terapia Ocupacional como uma Profissão de Estado e prova contumaz, a ser ofertada pelo Governo Federal, de seu desejo político (intenção política), de estender o bem-estar à comunidade

Quem Somos?

Somos uma categoria profissional que acolhe o corpo “ferido” e as suas solicitudes, estuda e analisa, para tanto, as escolhas e as decisões daqueles que sofrem; julgamos e cremos ser possível a recuperação, por meio da ocupação terapêutica, da saúde e do bem-estar das pessoas. Compreendemos que o corpo humano é, sobretudo, um corpo ocupacional e ousamos questionar ainda: Que corpo humano houvesse que ocupacional não fosse? E que corpo humano houvesse, sob qualquer condição de saúde ou relacionada à saúde, que da terapia ocupacional, para restabelecer suas atividades e participação no âmago da sociedade, não necessitasse?

A atividade de escovar os dentes, por exemplo, pode parecer, aos olhos daquele que possui as condições para realizá-la, uma tarefa simples, todavia, para um corpo que sofre significa, sem dúvida, uma interdição, uma desnaturação da realidade pessoal, uma desintegração do cotidiano e porque não afirmar um appartaid social e funcional.

Nós terapeutas ocupacionais temos uma substancial sabedoria para discernir quando um conjunto de tarefas, atividades e/ou ocupações podem ser estranhas à natureza do cliente ou, ao contrário, capazes de afastar o seu sofrimento. Dessa forma, construímos por anos teorias que suportam a possibilidade de diagnosticar, “desenhar”, propor, pré-escrever e pré-dizer ocupações que resultem em maior autenticidade e sentido à “peregrinação” daqueles que cuidamos.

Assim, honrosamente, a despeito das barreiras que nos são impostas, encontramos moradas , mesmo que transitórias, nas ruas, nas praças, nos asilos, nas prisões, nas casas transitórias, nas empresas, nos centros comunitários, clínicas, ambulatórios, hospitais e até debaixo das pontes, em stricto sensu. Instalamos nossos procedimentos em salas de espera, em corredores e embora saibamos o quanto preenchemos, silenciosamente, de autenticidade, saúde e bem-estar a vida das pessoas, ainda não encontramos eco nas políticas públicas de forma condizente aos nossos esforços e às demandas da sociedade

Nossa peregrinação histórica forjou em nosso perfil profissional a tenacidade férril de resistir ao desânimo assim como resistem aqueles para os quais se dirigem os nossos conhecimentos, esforços e cuidados (“tem uma pedra no meio do caminho...”). E assim, continuamos a salvar vidas da ausência de sentido (o corpo sem significado), da ausência de afetividade e hospitalidade nos hospitais (o corpo forasteiro), da ausência ao direito de um fim digno (o finar continente do corpo ocupacional), da impessoalidade da classificação das doenças (o corpo numerado), da solidão nos asilos e exílios (o corpo solitário, abandonado e sujeitado), do envelhecimento (o corpo cadente), da condenação social (o corpo penalizado), e de tantos modos de interpretar a vida corpórea além da biológica, isto é, o corpo humano além dos estigmas interpostos.



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 03h38
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A equipe acima é formada por profissionais valorosos que deixaram seus compromissos pessoais e durante cinco dias, incluindo o feriado de 07 de setembro, auxiliaram a construção de um novo tempo e mais independente para a Terapia Ocupacional. A formulação das Especialidades em Terapia Ocupacional. Na oportunidade foi entregue o abaixo assinado para o reconhecimento da Acupuntura como especialidade da Terapia Ocupacional.



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 21h10
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 16h32
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 12h54
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 12h50
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


2 – Transgredir - através do comportamento - as regras moralmente corretas de uma dada cultura - é pactuar com as moralmente incorretas – assumindo condutas comportamentais guiadas por um “espírito” motivacional ruim. A perda da virtude e - conseqüentemente - a interdição para uma vida “consagrada”. É deixar de ter uma passagem certa para a “salvação” ou inclusão em algum nível da complexidade social. Pode significar - por outro lado - conviver com o peso moral da transgressão. Aqui queremos evidenciar os resultados tanto do ponto de vista factual - como do ponto de vista simbólico e análogo à exclusão social.

 

Ou

 

3 – Fazer alguém crer - que pelo fato dele não estar ocupado ele já está excluído da moralidade dominante; o “nosso” mundo.

 

4 – Aponta também para um modelo eficiente para quem queira em qualquer momento de sua vida se “perverter” ou – pelo menos contraditar o ditame - pois basta deixar desocupada a mente que o processo se iniciará.

118.       Da diferença entre a intenção e a conseqüência: A intenção é a pretensão contida na proposta de um determinado ditame enquanto norma de comportamento (operador modal). A conseqüência - por sua vez - é o que resultado em termos de bem ou de mal em razão da violação ou não – neste caso - do dito popular.

119.       Com relação à intenção – a pretensão que ela carrega pode ser – por aproximação – tomada como o imperativo categórico de Kant:

120.       Obviamente - fica difícil - em alguns momentos distinguir entre intenção e conseqüência - pois uma tem implicação na outra e - portanto - para a construção completa de um pensamento - é necessário que ambas estejam articuladas em conjunção. Entretanto - aqui - para efeito de estudo - buscamos apresentá-las - se é que é possível - separadamente - a fim de estabelecer um percurso reflexivo mais conseqüente.

121.       O mecanismo contido na crença é bem simples (razão de seu sucesso – absorção rápida) - ou seja - basta manter a mente desocupada ou despreocupada para que a instalação de idéias pervertidas ocorra - não demandando – portanto - muito esforço - aliás - essa é uma das questões fundamentais – isto é - a ausência de esforço.

122.       A instalação se dá pela passividade - que é seu dispositivo principal - por meio dele se efetiva o consentimento - a permissão para a possessão. Por essa premissa - o deixar acontecer (dispositivo) - é que o ”contrato” com o caótico – com o amorfo - com o outro verso é “selado”.

123.       Analisando os dois possíveis resultados mediante o valor contido no ditame popular teremos:

124.       Se o agente for tomado pelo espírito corruptor - então - a norma - a crença não foi capaz de deter - de evitar a possessão - pois não foi suficiente e imperativa para afastar a tentação e sua conseqüente possessão. De outro modo, não se configurou em motivo eficiente – não apresentou a potencia necessária para contraditar  a “entidade” divergente da norma.

125.       Ao contrário - se o agente se manteve dentro da normalidade - ou seja - em atitude normal - que se alcança pelo esforço em manter a “verdade” da crença – A Mente Ocupada – ela - por sua vez - cumpriu a sua função e mostrou a sua eficiência. E se essa eficiência se reitera na maioria dos casos - continuará mantendo a sua resistência pragmática e será ajuizada cada vez mais - como correta - pelo juízo popular.

126.        E se o caráter correto de uma crença se dá pela eficiência no campo do real - que se defini - neste caso - pelas relações sociais “bem sucedidas” - tanto mais verdadeiro o ditado se apresenta para o juízo comum.  Agora - nos casos em que não foi “bem sucedida” e se mostrou deficiente - deverá ser abandonada em favor de outra crença que - emergindo do senso-comum - apresente capacidade de correção (reconversão) do agente pervertido. Esta nova crença não terá o mesmo caráter preventivo como o da anterior - mas sim um caráter corretivo - o que significa reabilitar tanto a correção - a “verdade” contida da crença anterior - como o crédito - a credibilidade do agente - que ora se apresenta - sem dúvida - em déficit - em débito - em dívida com a norma - com a normalidade. A ineficiência da crença como operador modal - gera um déficit no agente que não se guiou por ela. O que significa em última análise: como fazer - agora - para desmontar a oficina do diabo? Bem! Disso trataremos mais tarde.

127.       Bem! Mas voltando à análise deste dito popular - vamos agora verificar o que está Eliminado - Omitido e Distorcido nessa relação de significado - nessa crença popular - nesse paradigma de senso-comum?

128.       Vejamos quais as possíveis eliminações:

129.       A distorção por meio da analogia elimina o fato real de que é impróprio da mente humana ficar vazia, uma vez que ela está constantemente inundada de preocupações e solicitudes.

130.       Embora por meio da analogia o dito popular esteja a prescrever ocupações para a mente humana para prevenir a possessão diabólica, não descreve de forma explicita que ocupações ou preocupações são estas que cumprem a função relacional do ditado.

131.       Essas e outras eliminações geram as condições para as distorções fundamentais que estruturam a capacidade generalizadora de uma norma - sem - todavia - apresentar - por essa razão - a sua relevância - que se fundamenta nos valores estabelecidos pelo juízo popular e - também - pelas regras normativas dos institutos que conformam uma dada sociedade.

132.       Falemos então sobre distorção: a analogia com um espaço físico distorce a realidade e estabelece uma equivalência entre mente - conceitualmente abstrata - e casa/habitação objetivamente concreta - fazendo com que suas propriedades se tornem semelhantes - ou melhor - simulando propriedades objetivas em algo subjetivo - o que permite o fenômeno da substituição.  Portanto - se por comparação a mente é dada como uma propriedade - uma habitação objetivamente concreta - a desocupação é o abandono dessa propriedade - decorrente do afastamento do proprietário – em outras palavras - é o abandono pelo proprietário de sua propriedade. Entretanto - o abandono também pode e deve nos remeter à falta de cuidado - ou melhor - à falta de produtividade (desocupada enquanto ausência de atividade - de emprego do esforço na manutenção da propriedade).



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 16h19
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Clarificando a equivalência

106.       A estratégia usada para realizar a investigação deste primeiro ditado é a mesma que será utilizada nos demais - levando em consideração - obviamente - as peculiaridades de cada um dos que serão visados.

107.       Então vejamos: Se uma “mente desocupada” é igual à “oficina do diabo” - podemos - inicialmente - avaliar a relevância dessa equivalência pelas intenções presentes nela - ou seja - O que pretende o senso-comum com um ditado popular como este? Quais seriam as possíveis intenções contidas nessa relação de significado?

108.       Toda crença é uma relação de significado - o que faz com que uma idéia se equivalha à outra ou signifique a outra. Isto - por sua vez - se dá por um processo mental/cultural em níveis diferentes de complexidade - pois dependendo da relação de significado que se queira estabelecer - o processo poderá ocorrer definido pela conjunção e/ou disjunção de fatores históricos - antropológicos - filosóficos - teológicos - lingüísticos - etc. ou por razões mais superficiais - como é o caso das falácias - cuja artificialidade e resistência pragmática são precárias.

109.       No caso de um ditado popular não é diferente como podemos constatar: mente desocupada é = a oficina do diabo. O questionamento que emerge neste caso é: o que se pretende ditar com a relação nele estabelecida?

110.       Bem! O que se tem é um operador de modo - um operador modal - um modus operandi - um paradigma orientador da conduta - tanto de possibilidade como de impossibilidade - portanto - operando dinamicamente - entre o desejo e a obrigação. O modo mostra o evento em seus diversos graus: realidade - desejo - contingência - potencialidade etc. Na lingüística em razão da variedade dos modos segundo a cultura - há quem sugira três escalas na classificação deles:

 

1 – desejo e intenção = querer e pretensão – indicativo = Quer-se! Pretende-se! Deseja-se! Mentes ocupadas.

2 – necessidade e obrigação = precisar e ter que – imperativo = É imperativo! É preciso! É necessário! Manter as mentes ocupadas.

3 – certeza e possibilidade = fato e potência – subjuntivo =

Mente!  = Oficina do diabo seria se desocupada fosse

 

Queremos - intensionamos mentes ocupadas - pois se desocupadas estivessem - oficina do diabo seriam - portanto - é preciso - necessário e imperativo ocupá-las constantemente.

 

111.       O operador modal contido no ditado evidencia uma intenção principal: estabelecer uma norma de conduta - uma regra que orienta - que alerta para a causa e ao mesmo tempo para a conseqüência de uma conduta desviante. O desviamento - neste caso - é deixar a mente desocupada - “vazia”. Assim - em face da certeza de atualização de uma potencialidade - que é a instalação da oficina do diabo se faz imperativa a prevenção - a ocupação; mexa-se

112.       Donde depreende-se que há uma intenção profilática - preventiva nesse ditado popular - muito parecida com: faça exercícios - tome vitaminas - alimente-se direito - escove os dentes - pare de fumar e - conseqüentemente - evite problemas de saúde.

113.       Trata-se de um operador modal - que mostra suas intenções - necessidades e possibilidades - ou seja - se a sua intenção for igual à da norma - então se faz necessário (imperativo) que o indivíduo haja em conformidade com ela - pois existem possibilidades (potências) ruins em não fazê-lo. Há - como se pode ver - um maior acento sobre o caráter preventivo como intenção mais explicita.

114.       Pode-se - evidenciar - ainda - outras questões na complexidade intencional do ditado popular:

1 – Comparar a mente - por analogia - a uma casa/habitação - que desocupada - vazia - está predisposta a uma invasão; a uma posse indevida; a uma ocupação indevida; à uma possessão; à instalação da indesejada “Oficina do Diabo” comandada por um espírito com motivação moralmente contraria à norma estatuída pelo ditado.

 

“SOB NOVA DIREÇÃO”.

115.       Para o homem sacralizado significa o fechamento da abertura ontológica para o modo de ser essencialmente humano. Em outras palavras, é o retorno à forma homogênea – larvar e caótica anterior a fixação do verdadeiro mundo – o “nosso” mundo – que mantém solução de continuidade com o profano.

 

Ou

 

2 – Impedir que uma pessoa projete - fabule - na mente - comportamentos a partir de escolhas que se dirigem para finalidades fora da norma - (normalidade/regra) consensualmente estabelecida pela sociedade - impressa no ditado. Trata-se – pois - de impedir a mente de fabular ou voltar as suas preocupações para idéias “diabólicas”. Também significa impedir que os indivíduos - que participam dessa cultura - sejam solicitados ou tentados a se comportarem movidos por desejos contrários à moralidade estabelecida no dito.

 

Ou

 

3 – Afastar as pessoas do espírito corruptor e aproximá-las - pelo temor da exclusão - das preocupações e solicitudes consensualmente aceitas e moralmente corretas – realizar a tarefa de manter a abertura para o verdadeiro mundo – o “nosso” mundo; o mundo do indivíduo sacralizado.

 

116.       Por fim e - talvez - popularmente mais reconhecível:

 

5 – Apontar o ócio como elemento crítico - como causa de possíveis condutas erradas ou do afastamento do “nosso” mundo. O ócio como promotor do mundo profano – do caos – da forma larvar e amorfa. (uma relação de significado evidenciada e reduzida a uma relação de causa e efeito).

117.       Analisemos agora - quais são os resultados da relação de significado estabelecida pela equivalência - sob o prisma das conseqüências negativas em não considerá-la e vamos - também - avaliar os possíveis limites estabelecidos pela mesma:

 

1 – Ser invadido e se tornar “escravo” de um “espírito” alheio ao desejo pessoal. Perder a posse - a propriedade sobre a própria mente-corpo/casa/habitação/templus-tempus e se tornar um ninguém (amorfo/larvar/caótico); impessoal. Também significa - enquanto conseqüência - estar lançado a comportamentos - estimulados por um “espírito” diabólico que instiga desejos dissonantes da moralidade estatuida. Pode-se supor uma possível condenação e um conseqüente castigo em face da violação das normas consensuais contidas no juízo comum.

 

Ou

(...)



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 22h30
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
 
Histórico


Votação
Dê uma nota para
meu blog



Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis