Observatório da Terapia Ocupacional


 

Náusea – sintoma ou causa?

 

 

Senhor da doença

Busca funesta de poder frustrado;

Ideação fracassada de um corpo aprisionado;

Soma cadavérica;

Mosaico amorfo de vestígios do que passou;

Cabide-corpo de um avental engomado;

Casulo onde os poucos fios de vida tecem a morte dos condenados.

 

Doença, propriedade privada;

Diagnóstico, chave da porta;

Estar dentro; esotérico conhecimento;

Estar fora; forasteiro, intruso, corpo estranho.

Porta aberta?

Não!

Legalmente fechada.

Entrar é a saída?

 

 

AH! Maravilhoso corpo ocupacional que se cura a despeito da doença.

AH! Maravilhoso corpo ocupacional que se cura na cadência decadente da existência.

Sua terapia? O dia a dia!

Ocupacional como sua natureza!

Porta aberta entre dois corpos ocupados;

Ambos operados pelo sentido do ser do cuidado,

Ora de um lado, ora do Outro,

 

Mario Battisti



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 04h04
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Justiça, Equidade e Liberdade

Entre as várias discussões que perpassam a construção Política da Terapia Ocupacional destacam-se os seguintes princípios: Justiça, Equidade e Liberdade, os quais, em apertada síntese, podem ser definidos como segue:

Justiça princípio que visa promover a igualdade de direitos entre todos que estão sob a égide dos preceitos constitucionais, aos quais se seguem as regras prescritoras, ou seja, as Leis que regulam o proceder das pessoas em sociedade.

Equidade princípio que visa, por sua vez, fazer com que essas normas reguladoras sejam aplicadas de tal sorte a alcançar as pessoas nas suas necessidades individuais.

Liberdade princípio que fundamenta a vida democrática de uma nação e que, via de conseqüência, ecoa na organização política da sociedade.

Esses três princípios conjugados orientam a reflexão na direção de alguns conceitos chaves para a construção de uma política Nacional de Terapia Ocupacional; são eles:

a igualdade perante a Lei,

a especificidade das necessidades e a liberdade, sobretudo, e sem obstruções estranhas,de pensar os destinos da Terapia Ocupacional em face das solicitudes da sociedade brasileira.

Essa Política Nacional de Terapia Ocupacional tão almejada não suporta e não pode mais ficar adstrita ao juízo da análise quantitativa, ou melhor, constrangida à análise diminuta relacionada ao número de profissionais habilitados para o exercício da profissão. Ao contrário, ela deve ser visada como uma Política que vislumbra a Terapia Ocupacional como uma Profissão de Estado e prova contumaz, a ser ofertada pelo Governo Federal, de seu desejo político (intenção política), de estender o bem-estar à comunidade

Quem Somos?

Somos uma categoria profissional que acolhe o corpo “ferido” e as suas solicitudes, estuda e analisa, para tanto, as escolhas e as decisões daqueles que sofrem; julgamos e cremos ser possível a recuperação, por meio da ocupação terapêutica, da saúde e do bem-estar das pessoas. Compreendemos que o corpo humano é, sobretudo, um corpo ocupacional e ousamos questionar ainda: Que corpo humano houvesse que ocupacional não fosse? E que corpo humano houvesse, sob qualquer condição de saúde ou relacionada à saúde, que da terapia ocupacional, para restabelecer suas atividades e participação no âmago da sociedade, não necessitasse?

A atividade de escovar os dentes, por exemplo, pode parecer, aos olhos daquele que possui as condições para realizá-la, uma tarefa simples, todavia, para um corpo que sofre significa, sem dúvida, uma interdição, uma desnaturação da realidade pessoal, uma desintegração do cotidiano e porque não afirmar um appartaid social e funcional.

Nós terapeutas ocupacionais temos uma substancial sabedoria para discernir quando um conjunto de tarefas, atividades e/ou ocupações podem ser estranhas à natureza do cliente ou, ao contrário, capazes de afastar o seu sofrimento. Dessa forma, construímos por anos teorias que suportam a possibilidade de diagnosticar, “desenhar”, propor, pré-escrever e pré-dizer ocupações que resultem em maior autenticidade e sentido à “peregrinação” daqueles que cuidamos.

Assim, honrosamente, a despeito das barreiras que nos são impostas, encontramos moradas , mesmo que transitórias, nas ruas, nas praças, nos asilos, nas prisões, nas casas transitórias, nas empresas, nos centros comunitários, clínicas, ambulatórios, hospitais e até debaixo das pontes, em stricto sensu. Instalamos nossos procedimentos em salas de espera, em corredores e embora saibamos o quanto preenchemos, silenciosamente, de autenticidade, saúde e bem-estar a vida das pessoas, ainda não encontramos eco nas políticas públicas de forma condizente aos nossos esforços e às demandas da sociedade

Nossa peregrinação histórica forjou em nosso perfil profissional a tenacidade férril de resistir ao desânimo assim como resistem aqueles para os quais se dirigem os nossos conhecimentos, esforços e cuidados (“tem uma pedra no meio do caminho...”). E assim, continuamos a salvar vidas da ausência de sentido (o corpo sem significado), da ausência de afetividade e hospitalidade nos hospitais (o corpo forasteiro), da ausência ao direito de um fim digno (o finar continente do corpo ocupacional), da impessoalidade da classificação das doenças (o corpo numerado), da solidão nos asilos e exílios (o corpo solitário, abandonado e sujeitado), do envelhecimento (o corpo cadente), da condenação social (o corpo penalizado), e de tantos modos de interpretar a vida corpórea além da biológica, isto é, o corpo humano além dos estigmas interpostos.



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 03h38
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A equipe acima é formada por profissionais valorosos que deixaram seus compromissos pessoais e durante cinco dias, incluindo o feriado de 07 de setembro, auxiliaram a construção de um novo tempo e mais independente para a Terapia Ocupacional. A formulação das Especialidades em Terapia Ocupacional. Na oportunidade foi entregue o abaixo assinado para o reconhecimento da Acupuntura como especialidade da Terapia Ocupacional.



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 21h10
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Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 16h32
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Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 12h54
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Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 12h50
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2 – Transgredir - através do comportamento - as regras moralmente corretas de uma dada cultura - é pactuar com as moralmente incorretas – assumindo condutas comportamentais guiadas por um “espírito” motivacional ruim. A perda da virtude e - conseqüentemente - a interdição para uma vida “consagrada”. É deixar de ter uma passagem certa para a “salvação” ou inclusão em algum nível da complexidade social. Pode significar - por outro lado - conviver com o peso moral da transgressão. Aqui queremos evidenciar os resultados tanto do ponto de vista factual - como do ponto de vista simbólico e análogo à exclusão social.

 

Ou

 

3 – Fazer alguém crer - que pelo fato dele não estar ocupado ele já está excluído da moralidade dominante; o “nosso” mundo.

 

4 – Aponta também para um modelo eficiente para quem queira em qualquer momento de sua vida se “perverter” ou – pelo menos contraditar o ditame - pois basta deixar desocupada a mente que o processo se iniciará.

118.       Da diferença entre a intenção e a conseqüência: A intenção é a pretensão contida na proposta de um determinado ditame enquanto norma de comportamento (operador modal). A conseqüência - por sua vez - é o que resultado em termos de bem ou de mal em razão da violação ou não – neste caso - do dito popular.

119.       Com relação à intenção – a pretensão que ela carrega pode ser – por aproximação – tomada como o imperativo categórico de Kant:

120.       Obviamente - fica difícil - em alguns momentos distinguir entre intenção e conseqüência - pois uma tem implicação na outra e - portanto - para a construção completa de um pensamento - é necessário que ambas estejam articuladas em conjunção. Entretanto - aqui - para efeito de estudo - buscamos apresentá-las - se é que é possível - separadamente - a fim de estabelecer um percurso reflexivo mais conseqüente.

121.       O mecanismo contido na crença é bem simples (razão de seu sucesso – absorção rápida) - ou seja - basta manter a mente desocupada ou despreocupada para que a instalação de idéias pervertidas ocorra - não demandando – portanto - muito esforço - aliás - essa é uma das questões fundamentais – isto é - a ausência de esforço.

122.       A instalação se dá pela passividade - que é seu dispositivo principal - por meio dele se efetiva o consentimento - a permissão para a possessão. Por essa premissa - o deixar acontecer (dispositivo) - é que o ”contrato” com o caótico – com o amorfo - com o outro verso é “selado”.

123.       Analisando os dois possíveis resultados mediante o valor contido no ditame popular teremos:

124.       Se o agente for tomado pelo espírito corruptor - então - a norma - a crença não foi capaz de deter - de evitar a possessão - pois não foi suficiente e imperativa para afastar a tentação e sua conseqüente possessão. De outro modo, não se configurou em motivo eficiente – não apresentou a potencia necessária para contraditar  a “entidade” divergente da norma.

125.       Ao contrário - se o agente se manteve dentro da normalidade - ou seja - em atitude normal - que se alcança pelo esforço em manter a “verdade” da crença – A Mente Ocupada – ela - por sua vez - cumpriu a sua função e mostrou a sua eficiência. E se essa eficiência se reitera na maioria dos casos - continuará mantendo a sua resistência pragmática e será ajuizada cada vez mais - como correta - pelo juízo popular.

126.        E se o caráter correto de uma crença se dá pela eficiência no campo do real - que se defini - neste caso - pelas relações sociais “bem sucedidas” - tanto mais verdadeiro o ditado se apresenta para o juízo comum.  Agora - nos casos em que não foi “bem sucedida” e se mostrou deficiente - deverá ser abandonada em favor de outra crença que - emergindo do senso-comum - apresente capacidade de correção (reconversão) do agente pervertido. Esta nova crença não terá o mesmo caráter preventivo como o da anterior - mas sim um caráter corretivo - o que significa reabilitar tanto a correção - a “verdade” contida da crença anterior - como o crédito - a credibilidade do agente - que ora se apresenta - sem dúvida - em déficit - em débito - em dívida com a norma - com a normalidade. A ineficiência da crença como operador modal - gera um déficit no agente que não se guiou por ela. O que significa em última análise: como fazer - agora - para desmontar a oficina do diabo? Bem! Disso trataremos mais tarde.

127.       Bem! Mas voltando à análise deste dito popular - vamos agora verificar o que está Eliminado - Omitido e Distorcido nessa relação de significado - nessa crença popular - nesse paradigma de senso-comum?

128.       Vejamos quais as possíveis eliminações:

129.       A distorção por meio da analogia elimina o fato real de que é impróprio da mente humana ficar vazia, uma vez que ela está constantemente inundada de preocupações e solicitudes.

130.       Embora por meio da analogia o dito popular esteja a prescrever ocupações para a mente humana para prevenir a possessão diabólica, não descreve de forma explicita que ocupações ou preocupações são estas que cumprem a função relacional do ditado.

131.       Essas e outras eliminações geram as condições para as distorções fundamentais que estruturam a capacidade generalizadora de uma norma - sem - todavia - apresentar - por essa razão - a sua relevância - que se fundamenta nos valores estabelecidos pelo juízo popular e - também - pelas regras normativas dos institutos que conformam uma dada sociedade.

132.       Falemos então sobre distorção: a analogia com um espaço físico distorce a realidade e estabelece uma equivalência entre mente - conceitualmente abstrata - e casa/habitação objetivamente concreta - fazendo com que suas propriedades se tornem semelhantes - ou melhor - simulando propriedades objetivas em algo subjetivo - o que permite o fenômeno da substituição.  Portanto - se por comparação a mente é dada como uma propriedade - uma habitação objetivamente concreta - a desocupação é o abandono dessa propriedade - decorrente do afastamento do proprietário – em outras palavras - é o abandono pelo proprietário de sua propriedade. Entretanto - o abandono também pode e deve nos remeter à falta de cuidado - ou melhor - à falta de produtividade (desocupada enquanto ausência de atividade - de emprego do esforço na manutenção da propriedade).



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 16h19
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Clarificando a equivalência

106.       A estratégia usada para realizar a investigação deste primeiro ditado é a mesma que será utilizada nos demais - levando em consideração - obviamente - as peculiaridades de cada um dos que serão visados.

107.       Então vejamos: Se uma “mente desocupada” é igual à “oficina do diabo” - podemos - inicialmente - avaliar a relevância dessa equivalência pelas intenções presentes nela - ou seja - O que pretende o senso-comum com um ditado popular como este? Quais seriam as possíveis intenções contidas nessa relação de significado?

108.       Toda crença é uma relação de significado - o que faz com que uma idéia se equivalha à outra ou signifique a outra. Isto - por sua vez - se dá por um processo mental/cultural em níveis diferentes de complexidade - pois dependendo da relação de significado que se queira estabelecer - o processo poderá ocorrer definido pela conjunção e/ou disjunção de fatores históricos - antropológicos - filosóficos - teológicos - lingüísticos - etc. ou por razões mais superficiais - como é o caso das falácias - cuja artificialidade e resistência pragmática são precárias.

109.       No caso de um ditado popular não é diferente como podemos constatar: mente desocupada é = a oficina do diabo. O questionamento que emerge neste caso é: o que se pretende ditar com a relação nele estabelecida?

110.       Bem! O que se tem é um operador de modo - um operador modal - um modus operandi - um paradigma orientador da conduta - tanto de possibilidade como de impossibilidade - portanto - operando dinamicamente - entre o desejo e a obrigação. O modo mostra o evento em seus diversos graus: realidade - desejo - contingência - potencialidade etc. Na lingüística em razão da variedade dos modos segundo a cultura - há quem sugira três escalas na classificação deles:

 

1 – desejo e intenção = querer e pretensão – indicativo = Quer-se! Pretende-se! Deseja-se! Mentes ocupadas.

2 – necessidade e obrigação = precisar e ter que – imperativo = É imperativo! É preciso! É necessário! Manter as mentes ocupadas.

3 – certeza e possibilidade = fato e potência – subjuntivo =

Mente!  = Oficina do diabo seria se desocupada fosse

 

Queremos - intensionamos mentes ocupadas - pois se desocupadas estivessem - oficina do diabo seriam - portanto - é preciso - necessário e imperativo ocupá-las constantemente.

 

111.       O operador modal contido no ditado evidencia uma intenção principal: estabelecer uma norma de conduta - uma regra que orienta - que alerta para a causa e ao mesmo tempo para a conseqüência de uma conduta desviante. O desviamento - neste caso - é deixar a mente desocupada - “vazia”. Assim - em face da certeza de atualização de uma potencialidade - que é a instalação da oficina do diabo se faz imperativa a prevenção - a ocupação; mexa-se

112.       Donde depreende-se que há uma intenção profilática - preventiva nesse ditado popular - muito parecida com: faça exercícios - tome vitaminas - alimente-se direito - escove os dentes - pare de fumar e - conseqüentemente - evite problemas de saúde.

113.       Trata-se de um operador modal - que mostra suas intenções - necessidades e possibilidades - ou seja - se a sua intenção for igual à da norma - então se faz necessário (imperativo) que o indivíduo haja em conformidade com ela - pois existem possibilidades (potências) ruins em não fazê-lo. Há - como se pode ver - um maior acento sobre o caráter preventivo como intenção mais explicita.

114.       Pode-se - evidenciar - ainda - outras questões na complexidade intencional do ditado popular:

1 – Comparar a mente - por analogia - a uma casa/habitação - que desocupada - vazia - está predisposta a uma invasão; a uma posse indevida; a uma ocupação indevida; à uma possessão; à instalação da indesejada “Oficina do Diabo” comandada por um espírito com motivação moralmente contraria à norma estatuída pelo ditado.

 

“SOB NOVA DIREÇÃO”.

115.       Para o homem sacralizado significa o fechamento da abertura ontológica para o modo de ser essencialmente humano. Em outras palavras, é o retorno à forma homogênea – larvar e caótica anterior a fixação do verdadeiro mundo – o “nosso” mundo – que mantém solução de continuidade com o profano.

 

Ou

 

2 – Impedir que uma pessoa projete - fabule - na mente - comportamentos a partir de escolhas que se dirigem para finalidades fora da norma - (normalidade/regra) consensualmente estabelecida pela sociedade - impressa no ditado. Trata-se – pois - de impedir a mente de fabular ou voltar as suas preocupações para idéias “diabólicas”. Também significa impedir que os indivíduos - que participam dessa cultura - sejam solicitados ou tentados a se comportarem movidos por desejos contrários à moralidade estabelecida no dito.

 

Ou

 

3 – Afastar as pessoas do espírito corruptor e aproximá-las - pelo temor da exclusão - das preocupações e solicitudes consensualmente aceitas e moralmente corretas – realizar a tarefa de manter a abertura para o verdadeiro mundo – o “nosso” mundo; o mundo do indivíduo sacralizado.

 

116.       Por fim e - talvez - popularmente mais reconhecível:

 

5 – Apontar o ócio como elemento crítico - como causa de possíveis condutas erradas ou do afastamento do “nosso” mundo. O ócio como promotor do mundo profano – do caos – da forma larvar e amorfa. (uma relação de significado evidenciada e reduzida a uma relação de causa e efeito).

117.       Analisemos agora - quais são os resultados da relação de significado estabelecida pela equivalência - sob o prisma das conseqüências negativas em não considerá-la e vamos - também - avaliar os possíveis limites estabelecidos pela mesma:

 

1 – Ser invadido e se tornar “escravo” de um “espírito” alheio ao desejo pessoal. Perder a posse - a propriedade sobre a própria mente-corpo/casa/habitação/templus-tempus e se tornar um ninguém (amorfo/larvar/caótico); impessoal. Também significa - enquanto conseqüência - estar lançado a comportamentos - estimulados por um “espírito” diabólico que instiga desejos dissonantes da moralidade estatuida. Pode-se supor uma possível condenação e um conseqüente castigo em face da violação das normas consensuais contidas no juízo comum.

 

Ou

(...)



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 22h30
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Notícia veiculada no Jornal o Globo e Publicada no site do Jornal

 

Museu Bispo do Rosário expõe lado a lado obras de 'loucos' e de artistas contemporâneos

 

[...]

Depois de ter conseguido renomear o museu para Bispo do Rosário Arte Contemporânea, Aquino passou a brigar pela substituição do modelo de terapia ocupacional. Lázaro, que chegou ao museu em 2002 com um projeto de um livro e acabou ficando, conta que não foi fácil convencer a Secretaria municipal de Saúde, responsável pela manutenção básica do museu.

 

- Precisamos dar várias explicações à secretaria - diz Lázaro, defendendo o modelo de "escola livre de artes". - Terapia ocupacional é recreação de shopping, não apenas no Brasil, mas no mundo todo.

[...]

Ver a reportagem na íntegra

http://oglobo.globo.com/cultura/

 

 

 



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 01h00
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92.           As ocupações que contribuem para a manutenção desse “nosso mundo” são consideradas sagradas e capazes de orientar o indivíduo para a sua permanência neste “solo sagrado”– oferece-lhe o direito de desfrutar da participação do que lhe é próprio ( “nosso”) e mais – de uma abertura para o transcendente.

93.           A agricultura, por exemplo, é uma ocupação sedentária desenvolvida por várias civilizações ao longo da história – com técnicas específicas e entregues aos indivíduos pelos Deuses para a fundação do mundo. Outras questões homólogas não menos importantes, neste exemplo, podem ser verificadas - isto é - há um período mais adequado para semear – outro para a colher e outro para o descanso da terra. Este último é um tempo de difícil enfrentamento, conquanto seja um período que pode ficar entregue ao ócio.

94.           São períodos marcados - nas comunidades agrícolas tradicionais - como um tempo de espera até o retorno do tempo fecundo. Durante essa espera tem-se a desestruturação da vida cotidiana. Entre em cena, então, a passividade e o risco da aparição do caos. Dessa forma – por meio de festas busca-se extinguir o velho mundo e fazer nascer o novo; do caos tem-se a ordem novamente. Restauras-se, portanto, a abertura ontológica para modo de ser em conformidade com os Deuses – uma vez que os ritos – gestos - músicas – danças e versos recitados nessas festas renovam - reactualizam o compromisso original para com a ocupação entregue pelos Deuses.

95.           Um indivíduo ao pular uma fogueira – por exemplo – em festas desta natureza - deixa para traz tudo o que passou, principalmente as dores e a má sorte, e lança-se para um futuro novo, restaurado e sem máculas. Essa é um dos fazeres que tem função terapêutica e está contido nas atividades próprias das festas do solstício de inverno no hemisfério sul (festa do fogo) e de solstício de verão no hemisfério norte mais ao oriente.

96.           O caos é representado nos gestos – músicas – danças e versos – contudo é vencido pela reactualização dos modos que fundaram o mundo dessas comunidades – isto é – a sacralização – pelos Deuses - das boas sementes, que resultarão em uma colheita abundante na próxima safra (técnicas) e posteriormente o caos novamente na entressafra.

97.           Esses períodos de festas significam a recreação do tempo e do espaço sagrado homólogo ao tempo original que fundou o “nosso” mundo.

98.           O ditame popular ao afirmar que Mente Desocupada é Oficina do Diabo - homologa a mente ao espaço (hábitat), ao tempo (templum-tempus) e ao lugar de produção de fazeres; lugar sagrado que fixa o “nosso mundo”. E é com este ditado que inaugura-se o diálogo aberto com o senso comum visando cogitar qual a terapêutica nele criptografada.

 

 

Primeiro Ditame

Mente desocupada - oficina do diabo

 

99.           Tratar-se-á nesta nota de estudar a cadeia de causas e efeitos que decorrem de alguns ditados populares cuja natureza da predição está de alguma forma ligada à cognição do senso comum com relação aos efeitos “terapêuticos” pertinentes à ocupação humana.

100.       Dessa forma, trata-se de estudá-los numa perspectiva antropológica, observando - para tanto - aspectos históricos e lógicos (linguagem) neles contidos. Todavia - a pretensão maior – sobretudo - é cogitar o quanto eles estão na raiz constitutiva do ente Terapia Ocupacional - uma vez que são feixes de ações comportamentais que predizem a aparição do ser deste ente.

101.       Nessa direção a trama se inicia com um famoso e conhecido dito popular (senso-comum) QUAL SEJA: “mente desocupada, oficina do diabo”. O trabalho de relacioná-lo ao ente Terapia Ocupacional - como já se apontou - visa estruturar o caminho para poder - num momento posterior – se afirmar que na raiz constitutiva do ente Terapia Ocupacional subjaz – por exemplo - os processos de distração e recreação como fenômeno pelo qual se revela - aparece o ser do referido ente.

102.       Os ditados populares representam uma forma de equivalência de valores cujo resultado estabelece uma norma geral com vistas a conduzir o comportamento humano (feixes alternativos de ação).

103.       Algumas pesquisas ou estudos com relação aos ditos populares sugerem que a frase: mente desocupada - oficina do diabo teria nascido dentro das ordens religiosas - mais especificamente - nos seminários. E parece evidente que o seu objetivo - era estabelecer ou impor um padrão moral ao comportamento dos jovens seminaristas. Trata-se – pois – de uma visão derivada do homem sacralizado em contraposição ao profano. É uma forma de conservar a abertura ontológica para o modo de ser em concordância com a Divindade.

104.       A homologação casa/corpo constituinte do mencionado ditado, estabelece uma equivalência, uma igualdade entre os termos. Dessa forma, também, estabelece motivações impulsionantes e demoventes para cursos de ação definidos por chaves morais.

105.       Ora! O que há nessa equivalência complexa a ofertar no fenômeno de aparição de componentes do ente Terapia Ocupacional? Mente desocupada = Oficina do diabo.  

 



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 21h12
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79.          A natureza humana impõe a escolha de determinados cursos de ação em detrimento de outros em razão do bem e do mal que podem gerar e nisto reside a proximidade prática entre o que é bom ou ruim em termos terapêuticos e/ou morais.

80.          A ocupação humana foi ao longo da história se estruturando e deixando visíveis os vários modos de agir que a constitui (comportamentos) - também restou evidente os inúmeros utensílios (projetos) resultantes da interação com o ambiente (objetos). Entre outros utensílios temos também a aparição do ente Terapia Ocupacional enquanto instrumento de tratamento (terapêutica) - de cuidado – exatamente – pelos mesmos meios ocupacionais que o fizeram viger - nascer.

81.          De outra forma - essa área de competência visa cuidar do outro (da Pessoa) e para tanto se utiliza de conjuntos de tarefas planificadas (modos de agir/ocupações) para essa função denominada de terapêutica.

82.          As tarefas compõem a conjuntura de uma atividade - embora a tarefa e a atividade emirjam juntas - não são a mesma coisa. As tarefas são componentes de uma atividade em curso - as quais convergem para uma finalidade única que é aquela pretendida - projetada pela atividade. O resultado das tarefas planificadas para cumprir o fim de uma atividade (projeto) gera experiências e elas - por sua vez - se compreendidas - constroem novas relações interpretativas - inteligíveis do sujeito que as executou e do mundo (objeto). Neste sentido - podem ser causa de mudanças evolutivas na maneira com que o sujeito se comporta e se ocupa do ambiente (ocupar-se dele e nele - habitat/hábito).

83.          A ação - a atividade que planifica – neste caso - a tarefa de realizar uma terapia por meios ocupacionais é fruto de inúmeras camadas fossilizadas durante o processo histórico na caminhada de uma civilização - isto é - deriva de vários modos e – portanto - os contém num certo formato - são eles, por exemplo, os modos professor (rabi) - sacerdote – filósofo – guru – médico - curandeiro etc.

84.          A condição humana de ser ativo - de fazer atividade ou trabalhos - são respostas postas com a finalidade de minimizar - aliviar alguma necessidade. De outra forma - o fazer e o trabalho cumprem a função necessária de tornar sustentável - suportável a peregrinação do ser humano em sua trajetória existencial.

85.          O ente Terapia Ocupacional é diretamente “herdeiro” das condições humanas próprias do ser que o constitui - uma vez que - por princípio - o ser está pretenso a aliviar qualquer forma de infortúnio - pois assim a natureza o circunscreve.  Dessa forma - a Terapia Ocupacional enquanto nominalização de um modo de agir ou de ser - para uma dada finalidade do ser - tem - por conclusão necessária - de receber todos os traços fisionômicos do princípio que lhe fez nascer.

86.          Neste sentido - portar traços - portar uma herança - representa a busca incessante de cura/cuidado - o que significa que o ser do ente Terapia Ocupacional é herdeiro do fazer algo – enraizado no senso comum - com vistas ao cuidado - à cura de algo - o que se pretende provar investigando os ditado populares.

87.          Um retorno breve aos aspectos fundamentais na edificação das comunidades mais antigas pode – de modo exemplar – corroborar com as assertivas aqui postas.

88.          Para a comunidade tradicional os Deuses lhes deram tudo o que está em seu entorno bem como a própria vida. Dessa maneira, o espaço, o tempo (suas estações) e as ocupações – a forma como realizam suas atividades cotidianas – resultam de uma entrega de dádivas da providência divina e de uma reprodução dos modos dos Deuses. Contudo, essas dádivas estão dispostas àqueles que os reverenciam, que guardam as suas regras.

89.          A comunidade tradicional – assim sendo – torna sagrado tudo que está ao seu dispor – uma vez que ao agir dessa forma estabelece a solução de continuidade necessária para tornar o universo homogêneo, amorfo e caótico em um mundo heterogêneo – organizado – Cósmico; ponto fixo de orientação existencial.

90.          Segundo Mircea Eliade em O Sagrado e O Profano – A Essência das Religiões – tem-se o que segue:

 

“Um território desconhecido, estrangeiro, desocupado (isto quer dizer muitas vezes: desocupado pelos “nossos”) participa ainda da modalidade fluída do “Caos”. Ocupando-o e, sobretudo, instalando-se, o homem transforma-o simbolicamente em Cosmos mediante uma repetição ritual da Cosmogonia. O que deve tornar-se o “nosso mundo”, deve ser “criado” previamente, e toda a criação tem um modelo exemplar: a Criação do Universo pelos Deuses.”

“Segue-se daí que toda a construção ou fabricação tenha como modelo exemplar a cosmogonia.”

“Instalar-se num território, construir uma morada, pede, conforme vimos, uma decisão vital, assim para toda comunidade como para o indivíduo. Porque trata-se de assumir a criação do “mundo” que se deliberou habitar. É preciso, pois, imitar a obra dos Deuses, a Cosmogonia.”

Com relação ao tempo e as ocupações:

“O tempo de origem por excelência, é o tempo da cosmogonia, o instante em que apareceu a mais vasta realidade, o Mundo. É por essa razão que, assim como o vimos no capítulo precedente, a cosmogonia serve de modelo exemplar a toda a “criação”, a toda espécie de “fazer”

“O mito cosmogónico serve, assim, aos Polinésios, de modelo arquetípico para as “criações”, seja qual for o plano em que elas se desenrolem: biológico, psicológico, espiritual. Mas visto que a recitação ritual do mito cosmogónico implica a reactualização deste acontecimento primordial, segue-se daí que aquele para quem ele é recitado é projectado magicamente in illio tempore, no “começo do Mundo”, torna-se contemporâneo da Cosmogonia. Trata-se, em suma, de um regresso ao tempo de origem, cujo fim terapêutico é começar outra vez a existência, nascer (sibolicamente) de novo.” (grifo nosso)

 

91.          Dessa forma, nas comunidades tradicionais a ocupação do espaço, a ocupação do tempo e a ocupação enquanto fazeres são modelos exemplares entregue pelos Deuses – por meio dos quais os indivíduos se tornam parte do mundo. Em outras palavras, é por meio desses modelos que os seres se tornam inclusos no denominado “nosso mundo”, a partir do qual se pode tomar o que resta como impróprio a “ele”.



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 23h57
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Nota Segunda

Ter em Mente a Terapia Ocupacional

A Antropráxis e a Antropopoiésis dos Ditados Populares

O Cripto-Terapêutico

 

63.           A tarefa de protestar para a reflexão o senso comum e verificar como este tem em mente a Terapia Ocupacional é um desafio contumaz, uma vez que nele as coisas não restam tão claras. Ao contrário, no senso comum as coisas, os conteúdos dos istos estão reduzidos mais à forma. De outro modo, o conteúdo jaz adormecido na forma, na aparição simplificada, na aparência.

64.           Ocorre que, para o senso comum o conhecimento do isto que é o ente Terapia Ocupacional resta de uma cognição tecida na aparência do ente e, principalmente, a partir dos benefícios “palpáveis”, “visíveis” que dele podem advir em perspectiva.

65.           O senso-comum tem em menta, captura o ente Terapia Ocupacional por meio da denominada “sabedoria popular”, o referido saber desvela, inclusive, parcialmente a sua cognição das técnicas pertinentes ao ente. O saber em tela reside em notas criptográficas, ou seja, nas “normas” codificadas nos ditames próprios dessa forma de saber - os ditames populares – ditos populares, que operam relações de significado e de causa e efeito.

66.           Com o objetivo de cumprir a tarefa proposta, será necessário descodificar os referidos ditos populares e descomprimir os conteúdos neles reduzidos; ir além do aparente - em direção ao não cogitado. Nesse caminho, então, desvelar o ente Terapia Ocupacional neles criptografados.

67.           O ente Terapia Ocupacional, de alguma forma, resta, portanto, criptografada em vários ditos ou ditados populares. Neste caso, será necessário visar a dimensão antropológica da linguagem (antropoiésis) e dos fazeres (antropopráxis) para encontrar o interlocutor denominado senso comum e supor como ele tem em mente a Terapia Ocupacional.

68.           A aparição do mundo da vida junto à consciência é fruto da manifestação da faculdade humana denominada de inteligência (Intus Legere) – ou seja – a capacidade do ser humano de “ler por dentro” tudo o que lhe é possível e acessível entre os elementos pertinentes a esse mundo.

69.           A consciência – por seu turno – se explica – à prima face – como a relação entre pólos: Sujeito e Mundo – ou melhor – de um lado têm-se um pólo subjetivo (noético) que é o ato de visar = orientar-se para  - e de outro um pólo objetivo (noemático) que é o próprio objeto visado = para o qual se orienta a referida consciência.

70.           Disto se depreende uma intenção (Intentio = tender para) e um interesse para com algo do mundo. Os objetos postos no mundo (simplesmente dados) – por sua vez – de acordo com a intenção e o interesse – podem conter ou não - as propriedades que atraem (atra-ente) e fascinam o sujeito = para o qual a consciência se orienta. Nesse sentido – a consciência é um diálogo aberto ao mundo da vida.

71.           Essas afirmações levariam à conclusão necessária de que o cogito cartesiano – penso logo sou – é uma afirmação inequívoca – conquanto a razão seria o princípio da existência. Contudo – a consciência não pode ser colocada ao lado do corpo (objaz = objeto = ao lado) – uma vez que o ser humano é essencialmente corporal. Ele é encarnação, existência física no mundo e a sua existencialização (ponto de vista da experiência humana) é que inaugura o cogito, o pensar. Assim ele existe e em razão de todas as faculdades que lhe pertencem – que lhe são próprias - logo ele pensa. Dessa forma – o que é próprio do ser humano - o que é dele - é capaz de compreender-se – o que significa uma consciência, uma inteligência e um diálogo aberto e voltado para a captação do próprio ser – orientado para si.

72.           O corpo é a manifestação factual da existência, a sua ausência significa a não aparição do ser humano; o não existir. Por meio do corpo, além da aparição da existência, tem-se a manifestação de todo o restante de fenômenos que circunscrevem a presença do ser humano. Essas outras manifestações representam o ponto de partida para as semelhanças, bem como para as diferenças; pertencimento e não pertencimento.

73.           É próprio do ser humano fazer e dizer – uma vez que são modos de sua manifestação. Assim – o indivíduo fala o que está fazendo e faz o que está falando. A palavra é a retomada teórica – ou seja – é a expressão de uma visão do mundo e de como agir nele. Dessa forma analisando a palavra, com brevidade, pode-se apresentar alguns de seus modos, isto é, a palavra imperativa, que é a mais próxima do fazer, conquanto faz fazer; a palavra dubitativa, que revela a dúvida – ela inaugura a pergunta e a resposta (diálogo); a instalação da reflexão e, por fim,  a palavra invocativa que representa a súplica – o modo de rogar com aflição em face de um desespero ou de uma necessidade premente.  Por seu turno o fazer é colocar em prática a intenção cogitada pelo ser e nesse fazer  restam impressos as características do motivo para onde a ação se dirige.

74.           A dissociação entre a palavra e a ação denota o fazer alienado – estranho. A busca evolutiva e necessária do ser se dirige para a conexão entre a função crítica da palavra (razão instrumental) e a função eficaz do fazer, uma vez que o ser humano é aquele que tem um sentido de ser contido em si mesmo e esse sentido de ser lhe será cada vez mais próprio se ele o exercitar no mundo – em outras palavras – ser-no-mundo. Dessa forma, fazer e sentido de ser se fundem no existir humano para qualificá-lo, para caracterizá-lo.

75.           O fazer e a palavra são pólos dialéticos da existência humana – a dialética por eles instalada é fundamento da presença no mundo (encarnação da presença) – é a vinculação do ser humano a este mundo e representa o movimento que constrói a civilização. De modo prático esses pólos dialéticos emergem em face dos porquês essenciais da existência – isto é – Porque nascemos? Porque amamos? Porque temos que desaparecer?

76.           Um estudo preliminar da trajetória histórico-existencial do ser humano oferece a oportunidade de avaliar o efeito que determinado conjunto de valores contidos na linguagem (antropopoiésis) e nas ações desse ser (antropopráxis) exerce sobre o senso comum - ou melhor - determinar as possíveis intenções e conseqüências ante a eleição de conceitos inteligíveis e de fazeres humanos em meio ao cotidiano. 

77.           A historicidade constitui a chave da fenomenologia existencial - por meio dela se revelam as formas de aparição do ser. Em outras palavras, a historicidade revela os modos de aparição do ser. As manifestações se dão pela função racional discursiva – a linguagem inteligível na sua evolução – e pelas eleições de modos de agir e transformar o meio. Os modos são desdobramentos da ação humana, uma vez que eles revelam as especificidades em meio às semelhanças.

78.           É objetivo - também - verificar o quanto uma abertura maior da consciência – em face de algo simples como é um ditado popular - pode nos auxiliar no enriquecimento do conhecimento com relação aos fazeres e colher (captar) também aquilo que está criptografado com relação ao que é terapêutico – relacionado imediatamente ao ente Terapia Ocupacional - e com relação à moralidade contida nos mesmos – pois ambos desvelam os valores (as razões) que movem a escolha - a eleição de discursos e de um determinado curso de ação em detrimento a outros.



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 21h32
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59.           Antes, contudo, de verificar como o senso comum tem em mente o ente Terapia Ocupacional é importante destacar como alguns seres de outros entes têm em mente este isto.

60.           Daí a pergunta - como outros colegas de outras profissões têm em mente o ente terapia ocupacional? Bem! Dependendo da área de atuação, uma parcela crê que são eles os responsáveis por alguns fazeres que estão na base cognitiva da profissão de terapeuta ocupacional. Dessa forma, eles se destacam da figura fundo do mundo e vêm para o cenário gerando a já apontada indiferenciação entre um isto e outro. Portanto, passam a concorrer com o terapeuta ocupacional no cenário existencial. A referida concorrência é a corporificação da illusion negativa, pois a perspectiva de ameaça à inteligibilidade do ente Terapia Ocupacional resta comprometida. Neste caso, está-se diante de uma supressão de legibilidade, de identidade – no sentido de identificável.

61.           Outras orientações profissionais, em face de seus fazeres “mais complexos”, por comparação de istos, têm em mente o ente Terapia Ocupacional como algo simples e tal simplicidade se transmuta, por vezes, em algo menos importante, de menor valor. Dessa forma, reside neste caso, a produção de uma distorção de inteligibilidade do ente Terapia Ocupacional, contudo, na sua valoração; não há uma competição de istos visados como iguais ou semelhantes como no caso anterior, mas uma supremacia, em termos de valor, de um isto sobre o outro. Neste caso, está-se diante de uma supressão de valor, de uma legibilidade, de ser identificado como um isto necessário, mesmo em face de outros istos, sob um determinado ponto de vista “mais complexo”.

62.           A promoção da ininteligibilidade (condição de não legível) imposta ao ente Terapia Ocupacional nessas duas situações, sem dúvida, deve ser combatida para o destacamento, para a evidência e para a aparição mais plena do mesmo, pois é desnecessário apontar as conseqüências junto ao senso-comum desses dois modos – exemplares – de ataque à integridade do ente.

63.           Portanto, para dar continuidade à busca de responder - o que é isto Terapia Ocupacional?  Antecipa-se a necessidade de gerar uma Segunda Nota – intitulada – Ter em mente a Terapia Ocupacional.



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 17h37
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51             Ao se recorrer aos exemplos anteriores e em face da pergunta – O que é isto?  pode-se chegar às seguintes conclusões:

52             Que os movimentos tomados supostamente como os de escovar os dentes, reconhecidos, identificáveis, inteligíveis pela sua repetição habitual, podem se apresentar, ao final de sua ocorrência, em um comportamento adverso do previsto, pois não são atos já realizados, mas sim em andamento.

53             O ferro de passar roupa cuja utensilidade revela um comportamento provável, pode se tornar objeto de um comportamento adverso de sua finalidade original.

54             O futuro, para o ser, é o tempo da pretensão, é o tempo de vir-a-ser aquilo que ele ainda não é, pois a referida pretensão ainda não se realizou factualmente no cenário existencial.

55             É em razão dessa forma dinâmica, até certo ponto ininteligível e fluída dos modos (comportamentos), que eles se mostram ao ser (indivíduo), se colocam para ele como uma síntese instável de sua identidade; como incerteza, pois configuram, como se viu, naquilo que ainda não se realizou factualmente no cenário existencial e ao mesmo tempo naquilo que não se pode afirmar (ter certeza) que acontecerá.

56           Nesse sentido, a ação ou o modo de um sujeito  que se toma como objeto de estudo, representa, por um lado, o que o referido sujeito fez e foi, mesmo que isto tenha ocorrido há alguns minutos atrás, e por outro, representa aquilo que o sujeito ainda não fez ou, de outra forma, aquilo que ele ainda não é; aquilo que ele tem que fazer para satisfazer o seu desejo de ser, mesmo que ele venha a realizar algo semelhante ao que já fez. Tudo em razão de confirmar a identidade estável que se manifestou no passado. Por outro lado, a utensilidade de seus atos, que se manifesta de maneira factual no resultado alcançado por eles, quando está projetada para o futuro é instáveis pelas mesmas razões já expostas, umas vez que não se pode ter certeza de que a referida utensilidade se realize como foi planejada, ou melhor, se torne fática. 

57             Essa incerteza ontológica do ser em face do futuro manifesto numa illusion negativa de aniquilamento do ente Terapia Ocupacional afeta de modo acintoso e imediato um dos seres que constituem o cuidado na clínica da Terapia Ocupacional, isto é, o ser cuidador – o terapeuta ocupacional.

58             Assim, inevitavelmente, o aniquilamento em perspectiva, em face de uma illusion negativa, do ente Terapia Ocupacional, concorre para a desaparição do terapeuta ocupacional. Portanto, ter em mente o ente Terapia Ocupacional, neste diário, visado inicialmente pela pergunta – o que é isto? - não pode ser tão somente uma especulação ensimesmada, fechada na parcialidade do cenário existencial, ou seja, restrito a clínicos, a professores e a alunos de Terapia Ocupacional. Para alcançar êxito na construção da resposta, que significa, sobretudo, a compreensão do outro e, portanto, a ampliação do fenômeno - ter em mente o ente Terapia Ocupacional, deve-se chamar ao círculo da construção os interlocutores – o senso comum, que, por certo, têm a sua definição desse ente.



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 18h37
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37             Os dicionários apontam algumas definições para a palavra sucumbir:

Etimologia lat. succumbo,is,ubùi,ubìtum,umbère 'deitar-se abaixo; cair debaixo; etc.

transitivo indireto:

1 cair sob o peso ou a força de; dobrar-se, vergar Ex.: intransitivo

2 Derivação: sentido figurado - perder o ânimo; abater-se Ex.: sucumbiu depois da perda do emprego

transitivo indireto e intransitivo:

3 não resistir,ser  vencido; ceder, entregar-se Ex.: intransitivo

4 Derivação: por metáfora morrer, perecer Ex.: intransitivo

5 Derivação: por metáfora ser suprimido ou abolido; cessar de existir Ex.: as instituições não podem s. intransitivo

6 render-se às evidências; não resistir, ceder Ex.: diante das provas, o réu sucumbiu.

38             A despeito dos vários usos e sentidos da palavra, pode-se afirmar que restar quedado, perecer, ou deixar de existir é a manifestação do fenômeno de nadificação.

39             Nas situações em que as respostas à pergunta fundamental e suas derivações, embora respondidas, não encontram compreensão por parte dos interlocutores, se coloca em perspectiva a idéia de perecimento ou finamento.

40             Essa perspectiva de aniquilamento em razão da indiferenciação,  ou melhor, da incapacidade de se diferenciar, de se distinguir em meio aos outros istos, ou ainda, de restar incompreendido como diferente e singular na sua importância no cenário existenciário, se desvela como uma illusion negativa, um fantasma. Ora! Contudo, essa illusion negativa não afeta diretamente o ente Terapia Ocupacional, pois este é objeto. Ela é, em essência, uma aparição, uma manifestação do temor, sobretudo, do ser do ente Terapia Ocupacional, portanto, o efeito sobre o ente será indireto. Desse modo, a illusion negativa afeta imediatamente o ser e, via de conseqüência, o objeto de seu cogito – “existo logo penso”.

41             Quando se afirma que não afeta diretamente o ente Terapia Ocupacional, esta afirmação reside no fato de que o ente é um objeto e como tal já existe no mundo das coisas e de alguma forma restará registrado de modo factual na história. Contudo, a permanência do ente no tempo, a sua vigência, a sua utensilidade dependerá do ser.

42             A Terapia Ocupacional, enquanto objeto de estudo, é matéria conceitual e conhecimento que resulta objetivamente do cuidado de outrem. Dessa forma, é matéria em constante transformação, isto é, ela redefine-se e pode redefinir, concomitantemente, o resultado sobre outrem. Nesse sentido, o ente Terapia Ocupacional é o resultado do conjunto de idéias daqueles que o pensaram e trabalharam na sua construção (os fundamentos petrificados, ultrapassados ou não) e os conseqüentes resultados qualitativos e quantitativos impressos no outrem, em

43             O ser humano comporta modos dinâmicos e fluídos, contudo quando se trata de tomá-los como objeto de estudo, como objeto de reflexão (organizá-los racionalmente) eles se coagulam; eles se petrificam.

44             A referida coagulação ocorre, no tempo, antes de nós mesmos, configurando, dessa forma, o passado, uma vez que este é o único tempo experimentado pelo ser humano (o passado – o que já aconteceu – o já vivido e/ou já percebido) que imobiliza as ocorrências de maneira factual. Assim, os modos coagulados se tornam “estáticos”, condição que possibilita identificá-los e lançar sobre eles especulações próprias da mente cogitante.

45             O ente Terapia Ocupacional está alicerçado em constructos derivados da conjuntura de comportamentos humanos imobilizados pelo tempo, pois dessa forma eles se tornam identificáveis.

46             O processo de identificação se converte, por conjuntura dos modos (agrupamento dos comportamentos), no que se pode denominar de Identidade; no sentido de identificável, inteligível. A referida identidade, portanto, em grande proporção, somente é apreendida pelo que já passou; pelo que já aconteceu.

47             Dessa forma um dado comportamento, por exemplo, o de habitualmente escovar os dentes - por ser um modo já vivido sucessivas vezes (tempestivamente – regularmente) no curso existencial de um indivíduo - pode ser estudado, uma vez que resta nele uma identidade, de tal sorte que se alguém fizer uma mímica (mimese) do ato, será imediatamente reconhecido por um grande número de pessoas em várias culturas. O mesmo se dá com os objetos ligados ao comportamento, ou seja, é possível pela utensilidade do objeto identificar (ler) qual o comportamento ou os comportamentos a ele ligados. Nessa direção basta pensar num ferro de passar roupas ou num martelo.

48             A referida identidade, seja a que se revela nos modos do indivíduo ou aquela que se mostra pela utensilidade do objeto, é resultado da experiência, portanto, do já vivido. Nessa direção, quando se trata de observar o ente Terapia Ocupacional pelos modos ou pela utensilidade, também não é diferente, há que se fazer uma remissão ao passado, do mais próximo ao mais remoto. Todavia, o estudo do ente Terapia Ocupacional não se reduz somente à referida remissão, pois os modos ou comportamentos, em razão do que foi apontado no parágrafo 24, estão sempre dirigidos para o futuro, mesmo que seja para realizar um algo já realizado.

49             A leitura, a compreensão do que já ocorreu é um aspecto fundamental quando se trata da possibilidade de antever, de prever o que está por acontecer, pois é a partir do passado, do acumulo de experiências, que se pode antever qual será o curso, o destino e o resultado de um dado comportamento ou modo de agir. Todavia, tal previsibilidade não resta tão certa, pois o resultado pode diferir daquele que se antevia, uma vez que os cursos de ação humana estão sob a influência de inúmeras circunstâncias próprias da sua condição no cenário existencial.

50             Por conta das circunstâncias que envolvem os modos humanos, o que está por acontecer (por vir) não é tão inteligível, embora, sob vários aspectos, presumível. O futuro, dessa forma, é projetável em face do já vivido, do referido acumulo de experiências, mas é instável e fluído ante as referidas circunstâncias. Senão vejamos:

 



Escrito por Mario Cesar Guimarães Battisti às 13h03
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